A Sociedade do Chapéu Vermelho
Mulheres vestem roxo com vermelho e celebram a vida

Por Simone Muniz

"Quando ficar velha, quero vestir roxo
com chapéu vermelho, que não combina
e fica ridículo em mim."
Jenny Joseph, escritora americana

Uma poesia e um aniversário de 50 anos mudaram a vida da ex-mera-dona-de-casa americana Sue Cooper. Quando sua amiga Linda Murphy completou a meia-idade, Cooper a presenteou com a poesia que inclui o verso, aparentemente insano, acima (leia a continuação do poema no final da matéria) e um chapéu vermelho. Linda gostou tanto da surpresa que fez o mesmo no aniversário de 50 anos de outra amiga. Não passou pela cabeça das amigas que a brincadeira daria origem à engraçada e amorosa Sociedade do Chapéu Vermelho, irmandade que celebra a comédia, o besteirol e a alegria da vida aos 50 anos. Naquele momento, inaugurou-se uma tradição que hoje acontece em mais onze países por onde se espalham cerca de duzentas filiais da Sociedade do Chapéu Vermelho.

Vestidas de roxo e/ou vermelho, com escandalosos chapéus de todos os tipos e tamanhos - todos vermelhos -, as distintas senhoras que participam das irmandades organizam freqüentes reuniões para rir muito e fazer tudo o que a rigorosa educação não lhes permitiu até então. Criadas para serem mães provedoras e excelentes donas-de-casa, foi sobretudo aos 50 que elas descobriram o prazer de serem elas mesmas.

"Encorajamos cada mulher a se libertar de todo tipo de expectativas - as dos outros e as delas próprias", diz a fundadora (também chamada de Rainha-Mãe Exaltada) Sue Ellen Cooper, em entrevista ao jornal on line Insidevc.com.

Por trás do besteirol, das brincadeiras e da aparência de frivolidade, elas compartilham a aceitação de si próprias "com muito afeto, criatividade, experiências em comum e um genuino entusiasmo por tudo o que nos leve para frente", como explicou Sue Cooper no site Redhatsociety.com.

Tanta alegria provocou a admiração até das menores de 50, que pediram para participar dos encontros. E, apesar de ferir a tradição, as senhoras abriram exceções. "A regra é não ter regras", como afirma o texto da auto-apelidada "Desorganização do Chapéu Vermelho". Aquelas que ainda não tinham passado pela idade de receber o poema poderiam participar e se divertir nas brincadeiras e encontros mas para as distinguir, em lugar do chapéu vermelho, usariam o rosa até o dia em que completarem 50 anos. E qual não é a dose de ansiedade pelo dia em que vestiriam o tão esperado chapéu vermelho? "Celebramos feito loucas e nos divertimos muito, às vezes, mais do fizemos em nossas festas de debutantes ou qualquer outro aniversário na juventude", afirmou Cooper em uma entrevista.

A Sociedade do Chapéu Vermelho ainda não chegou no Brasil, mas aguarda o contato de possíveis pretendentes a fundadoras pelo seu site www.redhatsociety.com . O único requisito é a vontade de compensar a sobriedade da juventude aos 50 anos, não se importar em sair de pantufas na chuva e colher os louros de sua aparente - e saudável - insanidade.

Confira o famoso poema "Warning":


"Quando ficar velha, quero vestir roxo
com chapéu vermelho, que não combina e fica ridículo em mim.

Vou gastar minha pensão em uísque, luvas de verão e sandálias de cetim e dizer que não tenho dinheiro para a manteiga.

Vou sentar-me no meio fio quando estiver cansada, comerei todas as ofertas do supermercado, tocarei as campainhas dos vizinhos, arrastarei meu guarda-chuva nas grades da praça, e só assim me sentirei vingada por ter sido tão séria durante a minha juventude.

Vou andar de pantufas na chuva, arrancar flores do jardim dos outros, e cuspir no chão.

Vou usar roupas horríveis, engordar sem culpa, comer um quilo de salsicha no almoço, ou passar uma semana só na base de pão e picles.

Vou juntar caixinhas, lápis e rótulos de cerveja.

Mas enquanto ainda sou jovem, preciso de um tipo de roupa que me proteja da chuva, tenho que pagar o aluguel, não posso dizer palavrão na rua, devo dar bom exemplo às crianças, preciso ler jornal, estar informada, convidar meus amigos para jantar.

Por isso, quem sabe...
Eu não deva começar a treinar desde agora?
Assim ninguém vai ficar chocado quando de repente, eu ficar velha e começar a usar roxo."

Obs: Essa é uma tradução livre e, por causa das restrições do direito autoral, não foi possível publicar o poema completo no site. Ele faz parte do livro "Warning: When I Am an Old Woman, I Shall Wear Purple", ainda não traduzido no Brasil.
O original pode ser comprado na Amazon.


A americana Jenny Joseph escreveu o poema "Warning", que deu origem à Sociedade do Chapéu Vermelho, quando tinha 29 anos. Hoje, é uma senhora de 70, que acompanhou de perto as conseqüências de ter feito tão cedo as pazes com a sobriedade de sua juventude e escrito a poesia acima.

A Sociedade do Chapéu Vermelho já foi criada no Brasil sob a batuta da Simone Muniz, autora desta matéria.
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simone@maisde50.com.br