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Nosso bom amigo Aldo Cordeiro Dutra nos enviou
a história de seu pai,
numa singela homenagem, por ocasião do
recente Dia dos Pais. Decidimos publicá-la no site, agora como uma
homenagem ao próprio Aldo,
em retribuição à sua simpatia e ao seu
carinho para conosco.
Arnaldo e Regina Ribeiro
A História de Sebastião Gonçalves Dutra
Sebastião Gonçalves Dutra nasceu em Itapipoca,
uma humilde
cidadezinha do Ceará, no final do século XIX (1898).
Aos 10 anos perdeu o pai e, com apenas 13 anos, saiu de casa para
lutar
pela vida, caminhando 150 quilômetros de Itapipoca até
Fortaleza,
onde passou a adolescência trabalhando para sobreviver.
Naquela época, Sebastião era apenas
alfabetizado.
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Foi em Fortaleza que aprendeu a profissão de barbeiro, exercida até
1915, quando decidiu mudar-se para o Rio de Janeiro. Ao chegar a
Vitória, no Espírito Santo, Sebastião decidiu desembarcar e ficar
por ali mesmo. Com a dificuldade de conseguir emprego, peregrinou
pelo interior do estado, fazendo paradas em Cachoeiro do Itapemirim
e Muqui e, dali para Campos, já no estado do Rio de Janeiro. De
Campos, viajou para o estado de Minas Gerais, passando por Ubá,
Cataguazes e outras cidades, até chegar a Juiz de Fora. Só ali veio
a entender que o seu destino seria mesmo a cidade do Rio de Janeiro.
Foi para o Rio a pé, caminhando durante 30 dias e prestando
serviços avulsos para assegurar um prato de comida. Durante
a jornada, dormiu dentro de casa uma só vez.
As coisas mudaram
a partir da chegada na Cidade Maravilhosa, quando os dias de
fome acabaram. |

Foto de Sebastião,
tirada em 1922, num estúdio especializado, da Rua Marechal
Floriano - Rio de Janeiro |
Sebastião conseguiu um bom emprego como
barbeiro e passou a ter uma vida boa. Em busca de mais preparo,
conseguiu um professor particular para ensinar-lhe gramática,
aritmética, geografia e história. Um pouco de cada matéria, uma após
a outra, formando uma razoável base de conhecimentos. Foi, então,
que ele atingiu seu momento de grandeza.
Corriam os idos de 1924 quando Sebastião voltou ao Ceará para
visitar a família que vivia no interior do município de Itapipoca,
no alto da Serra de Uruburetama. Seus parentes levavam vida muito
humilde num pequeninho povoado chamado Assunção. Lá chegando, soube
do falecimento do seu cunhado David, casado com a sua irmã Úrsula.
Sebastião passava a ser o único homem da família. Naquele mesmo
instante, renunciou ao Rio de Janeiro, com seus 26 anos de idade e
uma boa vida, para cuidar de sua mãe, de suas quatro irmãs e de uma
sobrinha que, sem ele, ficariam abandonadas. Para sustentar a
família, Sebastião começou a trabalhar como barbeiro ali mesmo. Como
sabia ler e escrever, o barbeiro do povoado passou também a ensinar
as pessoas e, através dessas atividades, ia ganhando a vida.
Foi, então, que o professor “engraçou-se” por uma aluna e casou-se
com ela.
A partir desse ponto, a história de Sebastião é contada através da
narrativa de seu filho Aldo:
“À medida que íamos crescendo, éramos incorporados à escolinha do
meu pai e, com isso, aprendemos o equivalente a um curso primário,
preparando-nos para a vida. Meu pai ensinou-nos os princípios
fundamentais da vida com sua sabedoria enriquecida pela experiência,
forjada no mundo e caldeada no sofrimento. Esses princípios nos
foram inculcados também pelo exemplo que ele nos dava a cada dia,
tornando-o uma pessoa profundamente respeitada em toda aquela
redondeza.
Ele dizia sempre: todo trabalho honesto é honrado. Foi esta a sua
riqueza.
Uma alma privilegiada, que nunca se queixou de nada na vida, nem
mesmo sob o peso do sofrimento causado pela doença prolongada de
nossa mãe. Ela veio a falecer em 1966.
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Sebastião e esposa
em 1964
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Faço este relato emocionado como uma homenagem. Uma homenagem
repleta de incontida saudade, pois minha convivência com ele foi
muito curta. Eu saí de casa com 16 anos e foi meu pai
que me levou para Fortaleza, logo após o final da Segunda Guerra
Mundial. Ele me deixou ali no dia 22 de dezembro de 1945 para
assumir um emprego e, com isso, dispor de meios para estudar. Naquele dia, acompanhei-o até a estação da Estrada de Ferro,
onde nos despedimos com muita emoção. Foi um prolongado
abraço, apertado, |
sincero, sentido, quando nem um nem outro conseguiu pronunciar uma
única palavra. Ele afastou-se com lágrimas nos olhos e entrou no
trem, enquanto eu me retirava, sentindo a profunda dor do
afastamento, como se meu cordão umbilical estivesse sendo cortado
naquele exato momento. Meu saudoso pai, Sebastião Gonçalves Dutra,
nos deixou em 1983.”
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