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Ele
chegou ao Brasil em 1920. Tinha apenas 17 anos e muitos sonhos, com certeza.
Como outros imigrantes, deixou para trás a família, as terras, a
sua pátria, e veio em busca de uma vida melhor, da sua realização
como pessoa, do seu futuro. Não trouxe grande bagagem porque nada tinha
de muito importante para carregar além das suas esperanças. Não
viajou em nenhum transatlântico. Foi trabalhador a bordo de um cargueiro
para poder cruzar o oceano. Desembarcou na cidade do Rio Grande, lá no
Rio Grande do Sul, onde trabalhou duro, prosperou, tornou-se um forte comerciante
e formou uma família. Foi lá que eu nasci, o varão que veio
compensar a perda do primogênito Jorge.
Manoel Duarte Ribeiro
nunca usou o Duarte. Era simplesmente Manoel Ribeiro. Era simplesmente o "seu"
Manoel. Era simples, muito simples. De tão simples, chegava a ser ingênuo.
Acho até que um tanto crédulo. Com 1,60 m de altura, nunca foi um
atleta ou um galã. Mas foi galante o suficiente para conquistar e desposar
a senhorita Yolanda Mendes Pereira, recatada donzela da sociedade local que, com
sua beleza e elegância, cativara aquele "senhor português tão
gentil". Foi daí que eu nasci, nove anos depois da minha irmã,
o legítimo "raspa do tacho".
O
"seu" Manoel foi um trabalhador. Honrado trabalhador. O fruto do seu
trabalho permitiu-lhe muitas coisas: uma mesa sempre farta, filhos educados, casa
própria, uma vida digna e, sobretudo respeito dos vizinhos, dos amigos
e de seus clientes. Se não amealhou muitos bens, a explicação
talvez esteja na sua já mencionada simplicidade: ele se contentava com
pouco. O coração do português baixinho era muito grande. Ele
estava sempre disposto a ajudar o parente, o amigo, o cliente. E fazia isso sempre
que podia. Mesmo quando não devia.
O
"seu" Manoel também foi um pecador. Como somos todos. Mas não
consigo lembrar dos seus pecados pois, das minhas memórias, consigo recuperar
apenas cenas singelas de um colo protetor, de um abraço forte, de um olhar
de admiração ao me ouvir, de um sorriso feliz por me ver, de uma
lágrima brilhante no despedir.
O meu pai não foi nenhum
acadêmico. Teve pouca escola além da vida, que tudo lhe ensinou.
Mas foi, para mim, um grande professor. Com ele aprendi valores que me guiaram
até aqui. Com ele aprendi que a simplicidade também pode ser uma
virtude e que há coisas que não valem seu preço porque só
nos trazem falsas ilusões. Mas ele também me ensinou que mais vale
um gosto que seis vinténs e que o que se leva desta vida é o que
se come e o que se bebe. E, acima de tudo, ele me ensinou a grandeza do trabalho,
a nobreza do caráter e a riqueza da honestidade.
Esta homenagem
a um homem simples busca resgatar uma dívida: devo a meu pai um reconhecimento
que poderia ter sido inscrito em sua lápide, quando ele nos deixou há
vinte anos:
"Ao meu pai, Manoel Ribeiro, que pouco estudou
mas muito aprendeu. Que pouco tinha mas muito deixou. Que pouco falava mas muito
sentia. Que investiu tudo o que podia para fazer deste seu filho não apenas
uma pessoa educada mas, e principalmente, um homem de bem."
Quisera
ter tido mais tempo ao lado dele.
Arnaldo
Pereira Ribeiro março
de 2003
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